Eike Batista e a morte do ciclista

Uma cadeia de responsabilidades e irresponsabilidades volta a colocar em evidência a tragédia do trânsito brasileiro, que mata 50 mil pessoas todos os anos e deixa 100 mil inválidos.

Por Jakow Grajew*

Em um domingo de março de 2012, o ajudante de caminhoneiro Wanderson Pereira dos Santos perdeu a vida numa estrada fluminense, vítima de uma “imprudência” enquanto conduzia sua bicicleta. Ele estaria trafegando fora da faixa recomendada e com dose excessiva de álcool no sangue.

Entre os envolvidos na tragédia estava o jovem Thor, filho de duas pessoas conhecidas e admiradas por muitos, o empresário Eike Batista – o homem mais rico do Brasil e uma das grandes fortunas mundiais, e a modelo Luma de Oliveira, conhecida internacionalmente e destaque em muitos carnavais.

O veículo envolvido era uma Mercedes-Benz SRL McLaren, algo como um Fórmula 1 adaptado como carro de passeio. É o carro de transmissão automática mais rápido do mundo. Custa R$ 2 milhões e paga anualmente, só de IPVA, R$ 92 mil.

Por ocasião da tragédia, o condutor do veículo era o jovem Thor Batista, 20 anos de idade, mais de 50 pontos na carteira de motorista em menos de um ano. Pontuação que o impede de conduzir veículos em via pública.

O agravante é que o jovem cometeu algumas destas infrações enquanto portador de uma habilitação provisória, o que o impediria de obter a carteira definitiva, a não ser que entre com um recurso que seja aceito pela autoridade de trânsito.

Após o acidente, Eike Batista, tratou de esclarecer o corrido com o filho em mensagens postadas no twitter:

— A imprudência do ciclista poderia ter causado três mortes (Thor estava acompanhado de um amigo).

— Infelizmente aconteceu um acidente, porém a imprudência não foi do Thor.

— As multas de Thor aconteceram em São Paulo, aonde o limite de velocidade é menor e existe mais fiscalização.

— Atire a primeira pedra o motorista que nunca tomou uma multa por excesso de velocidade.

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Pontos na carteira

Mesmo tendo corretamente prestado socorro no momento do acidente e dado assistência à família, a postura do Thor e de seu pai levam a algumas perguntas e ao exercício de respostas:

1) Por que um jovem de 20 anos, com carteira provisória, está dirigindo o carro automático mais rápido do mundo em uma rodovia do Rio de Janeiro?

R: O jovem é filho do homem mais rico do Brasil. Portanto, pode dirigir o carro que bem entender.

2) Em que velocidade Thor estaria conduzindo a Mercedes McLaren?

R: Com um carro destes e com o histórico de pontos na carteira, é pouco provável que estivesse dentro do limite de velocidade.

3) Como pai e responsável, Eike Batista deveria ceder um veículo com essas características ao filho com pouco tempo de habilitação? E com 50 pontos na carteira, o que o impediria de conduzir?

R: O pai emprestou seu carro ao filho com a certeza de que ele teria condições de conduzi-lo de forma prudente. Assim como muitos brasileiros, deve acreditar que as infrações e os pontos na carteira são fruto de uma “indústria da multa” injusta, com pouca ou nenhuma relação com a prevenção de acidentes e com seu papel educativo.

4) Como este jovem dirigia e portava sua carteira de habilitação, quando deveria estar com sua carteira apreendida?

R: Uma combinação de ineficiência de órgãos públicos com o que é comum no Brasil – e não exclusividade de milionários ou bilionários, provavelmente obteve um “quebra galho” através de algum despachante.

5) Porque os limites de velocidade em São Paulo são mais restritivos do que no Rio de Janeiro, ainda que São Paulo seja reconhecido por ter melhores estradas, com as menores taxas de acidentes no Brasil?

R: Boa pergunta. Estaria Eike Batista bem informado?

Infelizmente, naquele domingo, o ciclista Wanderson Pereira dos Santos foi apenas mais uma das centenas de vítimas fatais no trânsito brasileiro naquela semana. Dada a dimensão dos envolvidos, o caso teve repercussão nos meios de comunicação.

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Tragédias no trânsito

O Brasil ostenta uma péssima colocação no cenário internacional de vítimas de acidentes de trânsito. São 50 mil pessoas mortas por ano, 100 mil pessoas inválidas e 400 mil pessoas atendidas nas emergências dos hospitais.

Uma verdadeira epidemia, que custa muito em vidas humanas e em dinheiro público gasto no atendimento aos acidentes e às suas vítimas. Que o digam as famílias das vítimas e os responsáveis pelos setores de saúde e previdência.

Essa epidemia pode ser combatida com mais e melhor educação para o trânsito, fiscalização eficiente e justa, menos corrupção, vias, rodovias e veículos melhores e mais seguros, atendimento médico mais preparado e eficiente.

É preciso que a sociedade civil, governantes, legisladores, empresários, associações diversas estejam engajados em torno de um plano nacional, estadual e municipal para reduzir os números de vítimas de acidentes em pelo menos 50% até 2020, como recomenda acordo assinado pelo Brasil junto à ONU.

Acidentes de trânsito raramente são fruto de uma fatalidade.  São resultados de uma combinação de fatores que na maioria das vezes poderiam ter sido evitados.

Será que a culpa pela morte do ciclista e “quase morte” de dois jovens naquele acidente teve apenas o ciclista como responsável? Não teria o pai de Thor alguma parcela de culpa ao ceder ao filho de 20 anos o carro automático mais rápido do mundo?

Não teriam as autoridades a sua parcela de culpa, por conta da falta de programas educativos, desrespeito a sinalização a pedestres e ciclistas, falta de fiscalização, péssimas condições de manutenção de vias e rodovias?

Não teriam as mesmas autoridades a sua parcela de culpa ao permitir que tantos de seus representantes e profissionais do setor de trânsito estejam envolvidos em escândalos e corrupção, problemas notórios em todos os estados brasileiros?

Eike Batista, empresário de grande sucesso, apoiador de boas causas, conhecedor das práticas no mundo desenvolvido, não teria perdido uma ótima oportunidade de dar um bom exemplo para ajudar na prevenção dos acidentes de trânsito?

Thor não é o único a colocar em risco a sua vida e a de outros. Ainda é tempo de evitar o pior para o futuro de tantas pessoas.

Felizmente, os dois jovens escaparam desta. Menos dor, sofrimento e sentimento de culpa para muita gente.  Pior seria se também tivessem sido vítimas, assim como o ciclista e sua família, que não tiveram a mesma sorte.

*Jakow Grajew, 61 anos, engenheiro,
doutor em gestão e professor da Escola de Administração de São Paulo da FGV.
jakow.grajew@fgv.br

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Foto: © Tatiana Cardeal. Imagem de ativista no Dia Mundial Sem Carro – São Paulo, 2007.
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