O novo modelo siderúrgico da Amazônia

A Amazônia brasileira vive um importante momento de sua história. Operações do Ibama, realizadas nas últimas semanas e ainda em andamento, embargaram as atividades das principais indústrias siderúrgicas envolvidas com a devastação ambiental e o trabalho escravo no Sul e no Sudeste do Pará. Três das maiores siderúrgicas da região tiveram suas operações paralisadas.

O uso de documentos falsos e de empresas de fachada permitiu às siderúrgicas devastar, em três anos, 27,3 mil hectares, o que resultou em 947 mil metros cúbicos de carvão. São mais de 15 mil caminhões enfileirados e carregados de carvão ilegal.

Nessa região, somente em 2011, seis lideranças extrativistas foram assassinadas. Em maio, a morte do casal José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo mostrou o agravamento dos conflitos na região de Nova Ipixuna e Jacundá, de onde sai o carvão que abastece as siderúrgicas agora embargadas.

Carvão predatório

A atividade predatória é responsáveis pela violência e pela corrupção, o que faz dessa região da Amazônia uma terra ainda controlada pela pistolagem e pelo trabalho escravo, usado em carvoarias que fornecem às siderúrgicas.

O carvão vegetal é fundamental para o setor. É usado para alimentar os auto fornos e para misturar ao minério de ferro. Ao contrário do carvão mineral, tem baixo teor de enxofre, o que permite a obtenção dos aços especiais, empregados pela indústria automobilística e eletroeletrônica. Mais de 90% de tudo o que é produzido na Amazônia é exportado para os Estados Unidos.

Desde a implantação do Polo de Carajás, nos anos 80, a siderurgia da Amazônia é sustentada por carvão ilegal. Pesquisas do Instituto Observatório Social, investigações do Ibama e do Ministério Público Federal mostram que algumas indústrias operam com mais da metade de carvão predatório. Desde 2004, a ONG Repórter Brasil produz relatórios que comprovam as fraudes e o uso de mão de obra escrava. Ou seja: o problema é conhecido pelo governo. E também pelas multinacionais ligadas a essa cadeia produtiva. Em julho de 2008, por exemplo, a Vale assinou um acordo com o governo brasileiro, se comprometendo a não vender minério de ferro para as indústrias da devastação. O acordo não saiu do papel, mas demonstra que o problema era debatido pelo mercado. Só faltou agir.

As fraudes descobertas pelo Ibama envolvem a Secretaria de Meio Ambiente do Pará. Investigações da Polícia Federal comprovam o envolvimento de funcionários do alto escalão do governo local.

O problema não é pequeno. Em 2010, as siderúrgicas do polo de Carajás produziram 1,8 milhão de toneladas de ferro gusa, compondo um importante item da pauta de exportações.

Novo modelo

O embargo às siderúrgicas da devastação e do trabalho escravo representará, em um primeiro momento, queda nas exportações e desemprego de uma mão de obra que já é muito precária. A médio prazo, trará retornos inestimáveis ao meio ambiente e, principalmente, aos povos da Amazônia.

Também trará retorno às siderúrgicas que operam dentro da lei, produzindo carvão a partir de floretas plantadas. Como esse carvão custa muito mais caro, ocorria uma inversão de papéis na Amazônia: as empresas sérias eram penalizadas e as empresas criminosas operavam sob a proteção de servidores públicos corruptos.

A ação em curso na Amazônia, que paralisa a operação das siderúrgicas da devastação, tem tudo para entrar para a história como o ponto da virada, em que o trabalho escravo e a devastação ambiental dão lugar à produção sustentada, com lucro para as empresas, justiça social e respeito ao maior patrimônio ambiental do povo brasileiro.

O tema é abordado por nós desde 2004, quando publicamos a reportagem Escravos do Aço, que se tornou um marco para as ações de enfrentamento que se seguiram. Em junho de 2011, a pesquisa O Aço da Devastação, que teve grande repercussão nos meios de comunicação de massa, apontou os mesmos problemas identificados pelas ações do Ibama que levaram ao embargo das siderúrgicas.

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