A Copa de 2014 e a Devastação Ambiental

Em até 90 dias, cinco mil funcionários serão contratados pelas carvoarias do Mato Grosso do Sul. O objetivo é suprir a crescente demanda do setor siderúrgico por carvão vegetal. Segundo o jornal A Crítica, de Campo Grande, “a iniciativa é para não prejudicar a indústria siderúrgica, que nos últimos anos está dobrando a produção de aço em função do aquecimento do mercado de construção movimentado pelas obras da Copa do Mundo em 2014”.

O jornal diz que o piso da categoria, que é de R$ 560, pode chegar a R$ 3 mil, dependendo da produtividade e da função do trabalhador. Falta gente para trabalhar nas carvoarias do estado, tamanha a demanda por parte do setor siderúrgico.

O aumento da produção de carvão vegetal tem impactos devastadores sobre as florestas brasileiras. O setor siderúrgico não é sustentável e se beneficia de carvão do desmatamento ilegal e do trabalho escravo.

Boa parte do carvão vegetal produzido no Mato Grosso do Sul é vendido para as siderúrgicas instaladas em Minas Gerais. No dia 7 de agosto, o jornal O Globo revelou um esquema de venda de carvão ilegal para o setor siderúrgico de Minas Gerais. Segundo apurou a jornalista Catarina Alencastro, entre as empresas que usavam o carvão predatório está a Gerdau, uma das maiores siderúrgicas do mundo. O montante da operação, segundo o jornal, foi de R$ 65,7 milhões. A Gerdau disse que vai apurar.

O caso também foi repercutido pelo cientista político Sérgio Abranches. “Se as empresas não assumem sua responsabilidade, devem mesmo ser judicialmente responsabilizadas, como coprodutoras do passivo ambiental. Se o mercado não é capaz de se autoregular, o estado tem que intervir e essa intervenção às vezes tem que ter teor repressivo ou punitivo”, escreveu Abranches.

Problema antigo

Em junho, a reportagem O Aço da Devastação, produzida pela Papel Social, revelou como as siderúrgicas instaladas na Amazônia usam esquemas fraudulentos para lavar carvão do desmatamento e do trabalho escravo.

Outros dois trabalhos da Papel Social – produzidos para o Instituto Observatório Social, revelam como operam os esquemas ilegais de produção de carvão para o setor siderúrgico: A Floresta que Virou Cinza, de fevereiro de 2011, e Escravos do Aço, produzida em 2004 e que se tornou referência para diversas iniciativas da sociedade civil, tais como a Carta-Compromisso pelo Fim do Trabalho Escravo no Setor Siderúrgico e o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.

Todos esses casos estão interligados. A produção predatória de carvão alimenta a indústria do aço e contamina um amplo espectro da atividade econômica brasileira: produção de automóveis, eletrodomésticos, celulares, computadores e também a construção civil.

Para saber mais sobre as cadeias produtivas que impactam as florestas brasileiras, visite o Conexões Sustentáveis, projeto criado por iniciativa do Fórum Amazônia Sustentável e da Rede Nossa São Paulo.

Outra iniciativa importante é o projeto Jogos Limpos Dentro e Fora dos Estádios, que busca acordos com empresas, compromissos de transparência entre governantes e ferramentas para ações coletivas de vigilância, monitoramento e controle social sobre os investimentos destinados para a Copa do Mundo de 2014, para a Olimpíada e a Paraolimpíada de 2016.

A produção de carvão de forma ilegal, para abastecer o setor siderúrgico, é uma das mais impactantes atividades predatórias em curso no país. As siderúrgicas sabem do problema desde 2004. O problema é público, conhecido pela sociedade.

Até quando o setor siderúrgico vai depredar o patrimônio ambiental brasileiro em benefício próprio?

Foto: produção de carvão ilegal para a indústria de aço na Amazônia. © Sérgio Vignes

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